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Bloqueio de bens pela União

Luana Tomasi. Advogada.

No último dia 9 foi publicada a Lei 13.606/2018 que, em meio ao tão alardeado parcelamento concedido aos produtores rurais, trouxe um jabuti de peso: a possibilidade de a União indisponibilizar bens sem processo judicial.

Segundo a prefalada lei, passados cinco dias do recebimento da notificação de débito junto à União sem que o contribuinte efetue o pagamento, a Fazenda Federal poderá, além de inscrever o contribuinte, pessoa física ou jurídica, nos órgãos de proteção ao crédito, averbar a certidão de dívida ativa nas matrículas imobiliárias ou no registro de veículos e impedir a transferência de bens.

Trata-se de um salvo-conduto para a Fazenda achacar o contribuinte, tolhendo-lhe todas as garantias constitucionais sem o crivo do Judiciário. O que não falta à União são mecanismos aptos à busca de seu crédito, que vão desde o arrolamento de bens até o bloqueio e a efetiva expropriação de bens móveis e imóveis.

O Código Tributário Nacional prevê a indisponibilidade de bens, desde que o contribuinte, citado em processo judicial para efetuar o pagamento, não o faça nem indique bens à penhora. Da mesma forma, a lei 8.397/92 autoriza a indisponibilidade do patrimônio do contribuinte, mas por meio de ação judicial própria e decisão proferida por um magistrado que entenda preenchidos seus requisitos autorizadores. Ou seja, desde os primórdios, o legislador se ocupou de assegurar o direito da Fazenda sem suplantar o direito do contribuinte de não ter seu patrimônio atingido sem o devido processo legal.

Embora a efetivação da medida ainda dependa da edição de uma norma regulamentadora que, esperamos, equalize esse amplo poder concedido à União, o fato é que, se aplicada a nova regra, teremos uma situação de absoluta ilegalidade e espezinhamento dos direitos do contribuinte, que terá de buscar o Judiciário enquanto suporta as agruras de uma ação tão devastadora quanto o bloqueio de bens.

Fonte: Diário Catarinense – Artigos | Pág. 04 | 19.01.2018

Mudanças no Simples

Segundo dados da Receita Federal, pelo menos 11 milhões de empresas no Brasil optam pela tributação pelo Simples Nacional. Em razão disso, o impacto de mudanças no regime é sempre significativo. É o caso da lei complementar 155, de 2016, que passou por alterações que entraram em vigor em 2018.

Uma das principais mudanças diz respeito aos limites de faturamento anual máximo para opção pelo regime: para microempreendedores individuais passa a ser de R$ 81 mil, para microempresas R$ 900 mil, e para empresas de pequeno porte R$ 4,8 milhões. O aumento significa que mais empresários poderão aderir ao Simples e permite que outros possam permanecer optando por ele. Todavia, deve-se ficar atento: essa alteração não atinge o recolhimento de ICMS e ISS – impostos sobre mercadorias e serviços, respectivamente. Para esses dois tributos, o recolhimento segue a regra normal, quando ultrapassado o limite de R$ 3,6 milhões de faturamento anual, com apuração e pagamento em guia própria.

Outra novidade é que o regime passará a contar com cinco tabelas e seis faixas de faturamento, com alíquotas progressivas a depender do tipo de atividade desempenhada. A mudança substitui as seis tabelas e 20 faixas até então em vigor, simplificando o enquadramento. Além disso, nesse ponto também há mais uma mudança: novas atividades foram incluídas, dentre elas a produção de bebidas alcoólicas, determinados serviços médicos e afins, de administração e de natureza técnica, desportiva e cultural. As alterações são abrangentes e muitas delas implicam benefícios às empresas. Porém, ao mesmo tempo, trazem dúvidas. As consequências dependem das contas de cada empresa. Ademais, nem sempre o recolhimento simplificado significa economia financeira, já que o Simples Nacional não permite as deduções dos outros regimes. Portanto, é inevitável aos pequenos empresários adotar um maior cuidado na apuração e recolhimento de seus tributos.

Eduardo Motta de Moraes. Advogado.

Fonte: Diário Catarinense – Artigos | Pág. 04 | 18.01.2018

 

Mudanças no ISS

Eduardo Motta de Moraes. Advogado.

O Imposto Sobre Serviços (ISS) constitui importante fonte de recursos de boa parte dos municípios brasileiros, ao mesmo tempo em que afeta praticamente todo cidadão – prestadores e tomadores de serviços. Em razão disso, alterações nesse tributo devem ser acompanhadas com atenção. É o caso de recente mudança legislativa nacional, que alterou o município competente para cobrar o ISS dos serviços de cartão de crédito e débito, leasing e planos de saúde.

Antes, esses serviços eram tributados no local do estabelecimento prestador do serviço, concentrando a arrecadação em poucas cidades. Com a modificação, o ISS será exigido pelo município de domicílio dos tomadores dos serviços atingidos pela mudança. O impacto é grande tanto para as empresas, que terão de adequar suas operações à nova regra e seguir a legislação, que é diferente nos milhares de municípios brasileiros, quanto para os consumidores, que provavelmente arcarão com o consequente aumento do custo dos serviços.

Todavia, essas mudanças não são automáticas. Mesmo com a alteração da lei nacional, os municípios ainda precisam adequar a legislação local. Essa adequação precisa passar pelo devido processo legislativo, além de respeitar o princípio tributário da anterioridade. Significa que, além de ser editada lei que preveja a cobrança do ISS no município do consumidor, essa lei precisa ser publicada até o mês de setembro do ano anterior ao início da cobrança. Ou seja, aos municípios que não fizerem a mudança até o fim deste mês, só será lícita a cobrança do ISS dos serviços de cartão de crédito e débito, leasing e planos de saúde no município dos usuários a partir de 2018. Aos que fizerem a mudança em 2018, a cobrança só poderá começar em 2019.

Apesar das exigências, há municípios que já anunciaram a intenção de cobrar o tributo no novo formato antes de qualquer alteração na lei local. Portanto, para as empresas que recolhem o ISS nessas operações, é bom ficarem atentos. Ao consumidor, resta esperar que o acréscimo no custo de operação seja absorvido pelas empresas.

Fonte: Diário Catarinense – Artigos | Pág. 04 | 26.09.2017

Desafios da advocacia

Em tempos de intensa metamorfose política, social e econômica em nosso país, poucas atividades sofreram tão radical mudança nas últimas décadas como a advocacia. De profissão quase aristocrática, maior parte sediada nos grandes centros urbanos, fruto do então reduzido número de faculdades, para os dias de hoje, com mais de um milhão de advogados e de 1.300 cursos de Direito, em que 75% foram inscritos na OAB nos últimos 15 anos. Ou seja, um novo perfil do advogado brasileiro, maior parte da geração Y, criando-se um conflito geracional e um padrão comportamental que tende a revolucionar o meio jurídico.

E se em 1990 ainda tínhamos uma economia fechada para o mercado internacional, em que a democratização do país era o maior desafio da área política; atualmente a globalização e o avanço tecnológico sem precedentes trouxeram novas demandas jurídicas e a criação de inúmeros nichos de mercado, transformando a gestão dos escritórios, que passaram a atuar através de advocacia especializada ou de equipes multidisciplinares. Com isto, a advocacia “artesanal” abrangente, do advogado sozinho que cuidava de múltiplas demandas do cotidiano, vem perdendo espaço no mercado, em especial nos grandes centros. Diante deste cenário de metamorfose constante, cabe ao advogado compreendê-lo e, principalmente, entender que o conjunto de competências e habilidades desenvolvidas até então precisa ser sempre renovado e aprimorado.

Passou-se a exigir um perfil multidisciplinar, que obriga o advogado a investir em inovação e conhecimento e a se manter conectado com as novidades tecnológicas e de sua área de atuação. A advocacia, por cuidar da litigiosidade social, do patrimônio e da liberdade, será sempre imprescindível, sendo que alguns atributos milenares permanecem sempre atuais e imprescindíveis para o êxito profissional: ética, resiliência, estudo e comunicação. Contudo, não é uma profissão de certezas, mas sim de esperanças, diferenciando-a das demais porque traz consigo as chamas da paixão e da busca por Justiça, cabendo ao advogado do século 21 compreender esta nova realidade e encará-la como uma oportunidade para seu desenvolvimento profissional.

Rafael Horn. Advogado.

Fonte: Notícias do Dia – Artigos | 13.09.2017

Nova Lei da Gorjeta

Entrou em vigor no dia 12 de maio a lei de nº 13.419/2017, que regulamenta o rateio das gorjetas entre os empregados que exercem atividades em bares, restaurantes, hotéis, motéis e estabelecimentos similares.

A nova lei, que altera a Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT, determina que a gorjeta integre a remuneração do empregado, devendo o empregador anotar na carteira de trabalho e no contracheque de seus empregados o salário contratual fixo e o percentual que será percebido a título de gorjeta.

Outra novidade é que o empregador inscrito no regime de tributação simples poderá reter 20% do valor arrecadado a título de gorjeta, desde que previamente disposto em acordo ou convenção coletiva, para custear os encargos sociais, previdenciários e trabalhistas decorrentes da integração da gorjeta na remuneração.

Esses encargos referem-se, por exemplo, aos reflexos em depósitos do FGTS, 13º salário e férias. O valor restante arrecadado (80%) deverá ser dividido igualmente entre os empregados.

Já as empresas não optantes pelo regime de tributação simples poderão reter, sob as mesmas regras mencionadas, 33% das gorjetas – 67% devem ir para os empregados.

Segundo determina a nova lei, as empresas que possuírem mais de 60 empregados deverão constituir comissão de empregados para acompanhamento e fiscalização da distribuição da gorjeta. Para as empresas que possuírem menos de 60 empregados, a fiscalização será feita pelo sindicato da categoria profissional dos empregados.

A Lei da Gorjeta visa, sobretudo, trazer maior segurança jurídica sobre o tema, já que esta questão gerava inúmeras controvérsias, culminando, muitas vezes, no surgimento de passivo trabalhista nas empresas, que acabavam tendo que ser resolvidos através de ações ajuizadas perante a Justiça do Trabalho.

Vale lembrar, por fim, que, apesar da regulamentação, para o consumidor, o pagamento das referidas gorjetas continua opcional.

Patrícia Von Mühlen Rodrigues. Advogada.

Fonte: Diário Catarinense – Artigos | Pág. 23 | 30.06.2017

Breve panorama sobre as reclamações consumeristas no Brasil

Rodrigo de Assis Horn. Advogado.

Somente em 2016, foram registradas 2.746.732 reclamações de consumo na plataforma consumidor.gov.br, ligada ao Ministério da Justiça e interligada ao banco de dados do Procon. Destas, 288.605 diretamente no referido portal, com índice médio de solução de 80%, e 2.458.127 via Procon, com índice médio de solução de 78%.

No Poder Judiciário, por outro lado, o volume de processos cresce de 3 a 4 por cento ao ano, representados principalmente pelos setores telefônico e financeiro, que curiosamente possuem empresas dentre as 100 maiores litigantes do País, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça(CNJ).

O que se observa, portanto, é que tais números demonstram algo bastante preocupante: além de estarem pecando na excelência de seus serviços e produtos, os fornecedores não estão solucionando amigavelmente os inúmeros problemas dos consumidores.

Conforme evidencia o Boletim do Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), no ano passado os assuntos mais demandados pelos consumidores nos Procons foram Telefonia Celular, com 13,9%; Telefonia Fixa, com 8,1%; Cartão de Crédito, com 7,3%; Banco Comercial, com 6,2%; e TV por Assinatura, com 5,3%. Já os cinco principais problemas alvos de reclamações foram: Problemas com Cobrança, 40,5%; Problemas com Contrato, 16,6%; Vício ou Má Qualidade de Produto ou Serviço, 14,0%; Problemas com SAC, 7,8%; e Problemas Diversos com Produtos e Serviços, 6,9%.

A resolução perante os Procons é aparentemente rápida, de menos de um ano. No Judiciário, no entanto, a depender da territorialidade e da complexidade do tema, costumam demorar de 2 a 5 anos. Há que se anotar, ainda, que as questões relativas ao consumo ocupam o 4º lugar dos assuntos mais demandados no Judiciário, com 1,6 milhão de ações, de acordo com dados do CNJ.

A solução desse tipo de problemática não é fácil, depende de maior presença do Estado na fiscalização e cobrança do cumprimento das leis, mas, acima de tudo, que os fornecedores invistam na excelência dos serviços e produtos e também dos canais de atendimento.

Estudos indicam que o “custo da não qualidade” (custo relacionado à impossibilidade de produzir e entregar 100% de produtos e/ou serviços adequados a seus clientes) está em torno de 15% a 30% do faturamento das empresas. Portanto, a melhoria traz não apenas a satisfação dos consumidores, com o consequente desafogamento dos Procons e do Judiciário, mas, principalmente, o aumento da lucratividade dos fornecedores.

Uma mudança no desagradável cenário atual depende, principalmente, de bom senso e de uma mudança radical no modus operandi das empresas, para reduzir drasticamente o “custo da não qualidade”, justamente o fator gerador das milhares de reclamações enfrentadas pelo Procon e, em escala menor, pelo Judiciário, anualmente.

Fonte: Migalhas – migalhas.com.br | Migalhas de Peso | 31.05.2017